quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Clipping: matéria no caderno 'Ela' do jornal O Globo em 31/12/2011

Artesão paulista cria peças que estão sendo colecionadas por cariocas
Quem esteve no Jardim Botânico, há algumas semanas, provavelmente esbarrou com um homem discreto, pele clara, fotografando troncos de palmeiras imperiais. Era o paulista  Eduardo de Castro, o novo queridinho da Dona Coisa, no Jardim Botânico. Gravadas em cristal, com desenhos que remetem a rendas delicadas, os trabalhos de Edu estão sendo  colecionados por gente como Izabel Gros, Mila Moreira e Lilia Cabral.
As peças, únicas, são gravadas à mão por Eduardo, que usa uma técnica chamada de drill engraving. Elas pretendem resgatar a sofisticação e suntuosidade das classes dominantes entre  os séculos XVI e XIX. Com máquinas similares às dos dentistas e ourives, o artista desgasta o cristal com precisão, criando as mais variadas imagens de flores, frutos, animais e o que mais surgir. E pensar que esse talento foi descoberto por acaso. — Eu trabalhava numa loja desenvolvendo produtos. Tivemos a ideia de fazer desenhos em cristal e encomendamos  algumas imagens para uma empresa. Depois de uma espera de três meses, recebemos um material ruim — lembra Edu. — Insatisfeito, comecei a procurar máquinas para gravar no cristal. Quando minha chefe viu o resultado, me demitiu! (risos). Disse que eu tinha feito um trabalho especial e podia me dedicar a ele.
Ao longo dos últimos seis anos, o artesão lançou várias linhas, como a Rendas Belgas (primeira coleção lançada na Dona Coisa) e Iluminuras, inspirada em ilustrações medievais da  Bíblia. — Trabalhei anos com moda, lançando no mínimo quatro coleções por ano. Acabei levando isso para a gravação de cristais. A coleção das rendas começou como uma  brincadeira, quando o banco americano Lehman Brothers quebrou, em 2008. Estávamos diante de uma crise de renda, não é? (risos). Já as Iluminuras nasceram de uma percepção  particular, acho que estamos vivendo um momento parecido com a época medieval, com crises de valores e governos que não funcionam — observa.
Eduardo trabalha em casa, na própria biblioteca, adaptada para abrigar o maquinário e as peças. O processo é artesanal, mas tem um quê de tecnologia. Para começar, ele precisa ter a  peça, seja uma garrafa, um aquário, um copo… Em seguida, fotografa o objeto e começa a mexer na imagem, usando photoshop. A etapa seguinte consiste em criar um molde, onde o  desenho começa a ganhar vida. Por último, ele desenha na peça, usando o molde como referência. — O desenho básico é feito com uma ponta de diamante bem fina. Parece loucura, mas a própria peça diz quando está pronta, da mesma forma que o jornalista sabe quando deve botar o ponto final em um texto. Para acabamentos mais detalhados, uso instrumentos como  o pirógrafo, que derrete o diamante e dá um brilho especial — explica.
As encomendas são de um público seleto, mas nem por isso são peças caras. Em São Paulo, Edu vende para as lojas Benedixt, PaperHouse e Bessarábia (essa última na cidade de São  Sebastião das Três Orelhas, uma espécie de nova Campos do Jordão, conta Eduardo). — Se eu começasse a cobrar muito caro, ia encalhar. Alguns copos custam R$ 60 ou R$ 80, um preço razoável. Já os vasos, que medem de 70cm a 1m, giram em torno de R$ 380 e R$ 1.800. Estou trabalhando também para uma fábrica de lustres de cristal. Eles me entregam os  lustres desmontados e eu faço os desenhos. Existem contatos para vender na Europa, principalmente Alemanha, que tem tradição na gravação de cristais, e Bélgica. — Estou pensando  em trabalhar com objetos lúdicos e com peças que projetam formas, dependendo da incidência da luz. Dá para ver que os planos para 2012 são muitos — brinca.
Eduardo vive do trabalho com gravações em cristal, no entanto, mais do que dinheiro, o que fica é emoção de conseguir sensibilizar os outros com suas pequenas obras de arte. —  Lembro que durante uma exposição de peças, a Scarlett Moon apareceu de cadeiras de  rodas. Como ela não podia chegar até onde estavam os objetos, eu fui correndo levar alguns  para ela ver. Algum tempo depois, ela comprou uma coleção inteira. Eu fiquei emocionado, porque conseguir tocar uma pessoa não é fácil. Meu trabalho é sutil, não tem cores para  chamar a atenção. Mas, se você der uma chance a ele, e parar para olhar, certamente vai gostar, vai perceber que alguém ficou muitas horas para produzir aquilo — completa.
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